Fundação Ralston-Semler

A  sede para a Fundação Ralston-Semler nasce para amparar o desenvolvimento econômico e social de uma nova área urbana no bairro dos Mellos, município de Campos do Jordão. Segundo seus idealizadores, o objetivo inicial da Fundação era o de “criar uma escola de utilidade pública – voltada para a educação infantil e todo o ensino básico (…). Ao longo dos anos, a Fundação abriu outras linhas de ação além da educação, sempre baseadas na participação democrática e preocupadas com o progresso econômico, social, cultural e ambiental no país”.

Para o projeto da nova sede da Fundação Ralston-Semler, era imprescindível a tradução material e espacial dos valores centrais defendidos pelo seu idealizador. O edifício deveria ser um espaço que promovesse a educação através da arte da arquitetura, que criasse espaços democráticos e que trouxesse um cuidado com o impacto ambiental gerado pela inserção de um elemento construído no suporte natural.

A edificação na sua organização programática e funcional pode ser entendida como uma sequência de espaços fluídos e de circulação livre, como uma sequência de praças: uma praça coberta e isenta de fechamentos laterais, uma praça coberta fechada perimetralmente com um leve caixilho de vidro (escritório) e uma última praça ao ar livre. O escritório possui um layout livre e passível de novas organizações espaciais, dispensando as tradicionais estações de trabalho. As praças externas aos escritórios servem para receber atividades culturais e eventos voltados para a comunidade do bairro dos Mellos.

A edificação repousa em um platô de geometria regular construído sobre o terreno natural, como se marcasse de maneira simbólica a ocupação humana em uma vasta área desocupada e de exuberante natureza preservada. Esse platô recupera uma maneira tradicional de se construir: regularmente as construções bandeiristas do interior de São Paulo eram erguidas sobre um patamar artificial inteiramente plano e executado em pedra com o intuito de “corrigir” os caimentos originais do terreno.

O edifício foi pensado como uma intervenção sutil na paisagem de maneira que não configurasse uma barreira visual efetiva para a reserva de mata atlântica circundante. Para atender essse objetivo, o projeto se vale de leve estrutura metálica, apresentando pilares com pequena secção e um esbelto pacote estrutural em sua cobertura.

Os diversos jardins projetados para a Fundação Ralston-Semler foram pensados para desempenhar funções além das estéticas e simbólicas, de uma forma que conseguissem incorporar atribuições técnicas e que fizessem parte da infraestrutura da edificação.

O jardim ligado ao núcleo de serviços e banheiros, em um dos extremos do platô construído, deverá ser executado como um canteiro Bio-séptico. Esse canteiro funcionará como um minissistema de limpeza dos efluentes: resumidamente trata-se de uma caixa construída de alvenaria enterrada preenchida em seu interior com material poroso (cascalho ou entulhos) que propicia a proliferação de colônias de micro-organismos que digerem os resíduos provenientes do esgoto. Esse tipo de canteiro serve para o plantio inclusive de espécies vegetais frutíferas que podem, com segurança, ter os seus frutos consumidos. Pode se estabelecer uma interessante relação entre a cozinha da Fundação e esse pomar.

No extremo oposto do platô, há a proposição de um jardim com significativo caráter simbólico, educativo e infraestrutural. Esse jardim é dividido em duas áreas retangulares, a primeira acolhendo um jardim de águas e a outra um jardim de sucessão ecológica.

O jardim de águas funciona como uma pequena bacia de retenção de águas pluviais, um espaço rebaixado no platô construído dotado de uma válvula para controle de vazão das águas. As águas recolhidas na cobertura do edifício e no platô construído são direcionadas para essa bacia, acumuladas e depois liberadas para uma cisterna que reservaria essa água não potável para usos de limpeza, irrigação dos jardins e descarga das bacias sanitárias. O acúmulo gradativo da água pluvial na bacia de retenção até o seu completo enchimento e a sua posterior vazão para a cisterna acaba se tornando um evento, dramatizando e tornando didático o armazenamento e reaproveitamento das águas.

O jardim de sucessão ecológica foi imaginado como um jardim dinâmico, não acabado no seu sentido formal em um primeiro momento, já que parte do pressuposto de uma alternância das espécies vegetais a serem cultivadas. O jardim de sucessão ecológica desenhado para a Fundação traz uma amostragem da técnica utilizada em reflorestamentos e na recuperação de ecossistemas danificados; esse jardim funciona como um laboratório vivo para a experimentação, cumprindo um caráter também didático e educativo. A sucessão de plantio segue uma sequência gradual e colaborativa entre as espécies: as primeiras fornecendo condições adequadas como sombra e preservação da umidade do solo para que as sucessoras vinguem. O plantio se inicia com plantas pioneiras (gramíneas e líquens) que recobrindo o solo nu, permitem o crescimento natural de espécies de porte médio (arbustos). Os arbustos por sua vez, produzem o ambiente adequado para que as sementes de árvores de grande porte possam se desenvolver adequadamente, chegando então ao clímax do jardim.

O último jardim projetado ocupa a cobertura do edifício. Esse jardim explora a dimensão artística e os efeitos óticos que o paisagismo pode assumir em determinadas circunstâncias. A cobertura é forrada de espécies em tons de magenta, vermelhos e violetas que, em contraste com a mata circundante e seus diversos tons de verde, cria uma grande vibração cromática entre essas cores complementares.

Está prevista para a área envoltória dessa edificação a construção de loteamentos residenciais que se utilizarão dos conceitos embutidos nesse projeto de forma a propagar, em escala urbana, os valores estéticos, construtivos, tecnológicos e ambientais presentes na nova sede da Fundação Ralston-Semler.

  • Ano: 2012
  • Localização: Campos do Jordão, SP | Brasil
  • Área: 450,00m²
  • Autores: Guile Amadeu e Rodrigo Lacerda
  • Equipe: Guile Amadeu, Rodrigo Lacerda e Renan Kadomoto
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