Urbanização da orla do Rio Cotinguiba, Laranjeiras, Sergipe

O “Projeto de Urbanização da Orla do Rio Cotinguiba” se apresenta aqui dez anos após o início de um contínuo de pesquisa e projeto dentro do campo da Arquitetura e do Urbanismo dedicado à cidade de Laranjeiras que remonta a um período bem anterior ao momento em que a arquiteta Lícia Leão e os arquitetos Rodrigo Lacerda, Guile Amadeu e Bruno Vitorino resolveram se unir para o desenvolvimento deste projeto.

Um trabalho final de graduação e uma dissertação de mestrado são os primeiros antecedentes do “Projeto da Orla” que aqui nos referimos. Os dois trabalhos foram desenvolvidos pela arquiteta Lícia Leão, sendo que o primeiro, realizado no período de 2004 a 2006 na Universidade Federal de Pernambuco, se dedicou ao desenvolvimento de uma proposta de intervenção de desenho urbano para um trecho do Centro Histórico de Laranjeiras partindo de uma pesquisa sobre a paisagem da cidade e considerações de uma parcela da população local. De 2008 a 2011, a paisagem e os espaços livres públicos do Centro Histórico de Laranjeiras se tornaram objeto de um estudo mais amplo e aprofundado durante Mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Vladimir Bartalini.

Finalmente, em junho de 2012, surge o convite da Superintendência do IPHAN de Sergipe para participar de licitação de projeto de desenho urbano para a Orla do Rio Cotinguiba, quando a arquiteta, ao lado dos sócios Rodrigo Carvalho e Guile Amadeu, do escritório Coletivo de Arquitetos, dão início aos procedimentos iniciais para participação do processo licitatório. A equipe de arquitetos é formalizada com a entrada do arquiteto Bruno Vitorino, do AUM Arquitetos, e, em outubro de 2012, vence a licitação, quando o trabalho passa a ser desenvolvido com parte da equipe de produção locada em São Paulo e parte em Aracaju.

O projeto, finalizado em novembro de 2013, contempla duas áreas situadas no Centro Histórico da cidade em margens opostas do Rio Cotinguiba, via fundamental de escoamento das riquezas produzidas em Sergipe durante o segundo ciclo da cana-de-açúcar (séculos XVIII e XIX). No auge do desenvolvimento econômico e social de Laranjeiras, na segunda metade do século XIX, e período imediatamente subsequente, a cidade passou a abrigar um conjunto de edificações na planície à beira do rio – sobrados, o mercado e alguns trapiches que serviam para armazenamento do açúcar produzido e transportado para outros estados do país e para a Europa, assim como para realização de atividades de comércio de escravos. Esse conjunto de edificações hoje conforma o arcabouço construído que delimita os espaços de intervenção do Projeto de Urbanização da Orla do Rio Cotinguiba.

 

Atualmente, a paisagem do Centro Histórico de Laranjeiras retrata ao mesmo tempo o período de grande desenvolvimento que a cidade atingiu no século XIX, e a decadência iniciada em princípios do século XX. Seus sobrados, igrejas e casario formam um conjunto arquitetônico representativo do modo de vida de uma época. O traçado urbano composto pelas ruas, becos e praças do núcleo de formação inicial permanece original. No entanto, o estado de conservação de boa parte dos seus edifícios é precário, em muitos casos devido ao abandono e falta de uso do imóvel, e em outros pelas intervenções sem critérios realizadas.

Reconhecido nas instâncias estadual (1970), municipal (1990) e federal, quando tombado pelo IPHAN em 1996, pelo seu significativo conjunto arquitetônico e paisagístico, o Centro Histórico de Laranjeiras conseguiu conservar sua forma urbana e certa unidade arquitetônica apesar de todas as transformações e descaracterizações. Nos últimos anos, porém, com o evento da implantação do Plano de Ação do IPHAN, em 2005, e a inclusão do Campus das Artes da Universidade Federal no Centro Histórico, em 2009, a cidade passou a ser palco de uma série de ações voltadas à recuperação do patrimônio urbano local que inclui restauro e inserção de novos usos em edificações de valor histórico bem como a realização de intervenções nas áreas livres públicas que fazem interface com esses edifícios. É neste contexto que o IPHAN lança em outubro de 2012, através de licitação nacional, a oportunidade de desenvolvimento de Projeto de Desenho Urbano para a Orla do Rio Cotinguiba.

 

Uma das principais intenções do Projeto de Urbanização da Orla do Rio Cotinguiba, como enfatizado no edital do IPHAN, era a de contribuir para superar a atual situação de degradação do Rio Cotinguiba, hoje caracterizado por altas taxas de poluição e avançado nível de assoreamento. Uma realidade facilmente identificada para quem visita o Centro Histórico da cidade e se aproxima do rio. A ideia era que a execução deste projeto aliada às ações de implantação do sistema de coleta e tratamento de esgoto da cidade e canalização de parte do trecho urbano do Rio Cotinguiba devolvesse ao rio o papel central que lhe cabe no conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Laranjeiras em termos de imagem, fruição cotidiana, visitação turística e de condições de trabalho para os pescadores.

O “Projeto da Orla” tem um caráter abrangente e multidisciplinar que pode ser visualizado pelo o conjunto de atividades requisitadas pelo IPHAN, a instituição contratante, e desenvolvidas pela equipe contratada como a elaboração de pesquisa histórica e iconográfica, desenho de espaços livres de uso público, planejamento urbano e da paisagem, restauração do patrimônio histórico e coordenação de projetos de engenharia. O projeto foi realizado em 6 etapas que, a princípio, deveriam ser desenvolvidas num período de 8 meses mas que, por um acordo entre o IPHAN e a equipe contratada se estendeu e o material final foi entregue em 14 meses.

 

Nas duas primeiras etapas foram realizados levantamentos topográfico e cadastral, seguidos por pesquisa histórica, bibliográfica e iconográfica, e uma série de levantamentos: da infraestrutura existente, do ambiente arquitetônico, de usos, apropriações e percepções dos espaços públicos. Na terceira e quarta etapas foram desenvolvidos o Estudo Preliminar e o Anteprojeto Urbanístico. Na quinta e sexta etapas os Anteprojetos Complementares e os Projetos Executivos de Arquitetura e Desenho Urbano.

 

Durante todas as etapas de desenvolvimento do projeto, os trabalhos acadêmicos realizados nos anos anteriores sobre o centro histórico, sua paisagem e seus espaços livres cujo conteúdo contribuiu para a compreensão de diversos aspectos do lugar, as origens e transformações da paisagem local, serviu como material referencial constante e subsídio fundamental para a elaboração das diretrizes gerais que guiaram as decisões de projeto.

 

Texto de autoria da arquiteta Ma. Lícia Cotrim Carneiro Leão

  • Ano: 2013
  • Localização: Laranjeiras, SE I Brasil
  • Área: 10.000 m²
  • Autores: Rodrigo Lacerda, Lícia Cotrim, Guile Amadeu, Bruno Vitorino, Camila Marques, Carles Pastor, Carlos Perles, Daniele de Souza, Juliana Pimenta, Millena Moreira e Guilherme Oliveira
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